sexta-feira, 29 de maio de 2026

Desencontros de Harvey ou histórias de um ator do terceiro mundo

 



Luiz Linhares (1926 / 1995) foi uma figura singular na cultura brasileira, e seu livro "As Desventuras de Harvey" funciona como um portal para a mente de um artista que viveu intensamente os palcos e as telas e conviveu com artistas de renome da cena brasileira

A obra, sua primeira e até hoje, a única incursão na literatura foi lançada em 1983 e é marcada por um tom confessional e por vezes satírico, reflete a sensibilidade de um homem que não apenas interpretou personagens, mas observou as engrenagens da dramaturgia nacional por dentro. Um ser humano underground, no melhor estilo da palavra.

Nascido no arraial de Porto Antônio, distrito de Cataguases, hoje cidade de Astolfo Dutra, Minas Gerais, Luiz Linhares chegou a dar aula de teatro durante um ano no Colégio Cataguases, prédio emblemático encomendado por Francisco Inácio Peixoto á Oscar Niemeyer em 1945, dando liberdade para chamar outros nomes do modernismo para compor o Colégio: os jardins são de Burle Marx, o mobiliário de Joaquim Tenreiro e Portinari assina o mural do hall, “Tiradentes”, que antes de ser levado à Cataguases foi exposto no MAM do Rio em 1949. Paulo Werneck concebeu o painel em pastilhas “Abstrato” e à frente do edifício encontra-se a “O Pensador,” de Jan Zack. Chico Buarque também estudou na escola.

Luiz Linhares carregava consigo a herança do interior mineiro, quando se mudou de Minas. Essa base mineira o ancorou mesmo quando mergulhou no cosmopolitismo do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Sua trajetória no TBC, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, é um marco: ele integrou a "era de ouro" da companhia, convivendo com nomes que profissionalizaram o teatro no país. Fez parte de uma geração privilegiada no TBC, onde trabalhou ao lado de verdadeiros ícones da dramaturgia nacional. A companhia, que profissionalizou o teatro no Brasil, era conhecida por manter um elenco fixo de altíssimo nível. Entre as personalidades com quem ele dividiu o palco e os bastidores, destacam-se: Cacilda Becker: considerada por muitos a maior atriz do teatro. Fernanda Montenegro: que atuou na companhia antes de fundar o Teatro dos Sete, contracenando em diversas produções clássicas. Paulo Autran e Tônia Carrero, dupla icônica que ajudou a definir o estilo sofisticado do TBC antes de formarem sua própria companhia. Walmor Chagas e Cleyde Yáconis, nomes centrais do elenco fixo que participaram de montagens históricas ao lado de Linhares e Fregolente, ator com quem trabalhou especificamente na peça "Nina", de Roussin, protagonizada pela atriz Olga. Além da convivência com esses artistas, foi dirigido por grandes mestres europeus que Franco Zampari trouxe para o Brasil, como os italianos Adolfo Celi, Luciano Salce e o polonês Ziembinski, que foram fundamentais para elevar o padrão técnico das suas atuações. No palco, sua presença era magnética, fruto de uma técnica rigorosa e de uma entrega que o destacava no repertório clássico e moderno.

No cinema, sua atuação foi igualmente relevante, participando de produções que ajudaram a moldar a identidade visual e narrativa dos filmes brasileiros das décadas de 50 e 60. Ele sabia transitar entre a imponência do teatro e a naturalidade exigida pelas lentes, mantendo sempre uma elegância nata. Sua filmografia é um testemunho da sua versatilidade, tendo colaborado com os diretores mais influentes do cinema brasileiro em obras que definiram épocas. Sob a direção de Paulo César Saraceni, Linhares integrou o elenco de "O Desafio" (1965), um marco do Cinema Novo, e anos depois personificou a erudição trágica como Tomás Antônio Gonzaga em "Os Inconfidentes" (1972), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Sua presença no cinema marginal e nas críticas sociais da década de 60 e 70 é notável em colaborações com Rogério Sganzerla no clássico "O Bandido da Luz Vermelha" (1968) — onde interpretou o Delegado Cabeção — e com Arnaldo Jabor na sátira "Tudo Bem" (1978). O ator também marcou presença em produções de fôlego histórico e biográfico, como "Anchieta, José do Brasil" (1977), de Paulo César Saraceni, "O Homem do Pau-Brasil" (1982), de Joaquim Pedro de Andrade, e na densa adaptação de "Memórias do Cárcere" (1984), sob a batuta de Nelson Pereira dos Santos.

"As Desventuras de Harvey" acaba por ser um espelho dessa vida multifacetada. Ao ler a obra, percebe-se que a "desventura" é, na verdade, a jornada de um artista em um país de memória curta. Luiz Linhares nunca esqueceu suas raízes de Astolfo Dutra, Cataguases, da Zona da Mata e o público não deve esquecer o legado de Harvey — ou melhor, de Luiz Linhares — para a arte brasileira.

 

"As Desventuras de Harvey" de Luiz Linhares, editora Achiamé, 1983, 104 pags,