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terça-feira, 1 de setembro de 2015

UM DIA DEDICADO A ANIMAÇÃO

Um dia dedicado a Animação
21/08/15
Por Flávia Guerra *

Entre os destaques brasileiros do 26o Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, que começou na quinta (dia 20) e segue até 30 de agosto,  algumas das produções mais surpreendente são curtas de animação.

Alguns mais profissionais, outros mais mambembes e experimentais, mas todos em busca de uma linguagem própria e realizados nas mais diversas técnicas. Sejam futuristas como Mobios (de Carlos Eduardo Nogueira. Veja trailer abaixo) ou mais clássicos como o poético Égun (de Helder Quiroga) e até o divertidíssimo Até a China (de Marcelo Marão), há uma característica que os une: a produção de animação para cinema no Brasil ainda é, em sua grande maioria, realizada de forma autoral.
Para discutir o legado, o presente e o futuro da animação brasileira, o Festival de Curtas dedica a sexta-feira para debater, exibir e celebrar a produção nacional. Abrindo a programação, às 18h, será lançado o livro Maldita Animação Brasileira, com a presença do diretor e pesquisador Sávio Leite, que levou dois anos entre a pesquisa e a elaboração do livro.

Rara iniciativa de discutir e mapear a produção e os talentos de diversas regiões do País, a publicação joga luz em questões importantes como o atual panorama da produção atual, a produção underground (ou udigrudi, consagrada por mestres como Otto Guerra),  a produção de animação feita por crianças (em um artigo da diretora e animadora Patrícia Alves Dias), além de entrevistas com nomes de destaque como Allan Sieber,  César Cabral, Clécius Rodrigues, Marcelo Marão, entre outros.
”Eu sempre quis fazer um livro que fizesse um estudo sobre a animação. Ainda existe muito preconceito em relação à nossa produção. Primeiramente do próprio público, que ainda acha que animação é coisa feita só para criança. Em segundo, o da própria classe, que acha que animação é uma arte menor dentro do cinema”, declarou Sávio em entrevista ao TelaTela.

“E para completar, há poucas publicações sobre animação brasileira. Fui pesquisar sobre a literatura em torno do tema e tudo que encontrei é muito técnico e pouco analítico”, completa o pesquisador, que antes de Maldita Animação Brasileira já havia organizado o livro Subversivos, o Desenvolvimento do Cinema de Animação em Minas Gerais.

Sávio “O primeiro livro surgiu para comemorar os dez anos do Mumia (Festival Udigrudi Mundial de Animação de Belo Horizonte) e contar uma história que até então existia de forma oral, a do núcleo de animação formado em BH na década de 80, com convênio do National Film Board do Canadá em parceria com a Universidade Federal de Belas Artes. Isso permitiu criar uma geração que faz e pensa animação” relembra o professor e pesquisador.

Já o segundo livro, mais abrangente, faz um recorte da animação underground brasileira. “Mas, na verdade, tudo é underground. É difícil diferenciar um projeto completamente comercial de um completamente independente. Isso porque nossa produção ainda é independente, por mais que tenhamos crescido, feito longas-metragens, criado e vencido editais públicos de financiamento”, analisa Sávio.

Para o pesquisador e também professor, ouvir, por meio de entrevistas, os diversos profissionais de animação de vários estados e vertentes brasileiras foi a forma mais ágil de realizar um panorama abrangente da produção contemporânea. “Cada um deu sua opinião direta, como um depoimento, e reflexiva sobre seu trabalho, o mercado de trabalho e o cenário atual. É uma forma de conversar com eles todos e pensar mais analiticamente a animação”, completa Sávio, que já planeja um terceiro volume.

“Ficou ainda muita gente boa de fora. E quero também realizar um retrato com uma visão antropofágica do nosso estilo, que absorve referências tão diversas, do mundo todo, e produz algo tão cheio de personalidade”, diz Sávio.

Animação feita por e para crianças

Quem debate também a produção, mas a feita por crianças, é Patrícia Alves Dias. Criadora do projeto Carta Animada pela Paz (reconhecido pela Unesco como Melhor Prática de Mídia nas Escolas da América Latina), em sua gestão como coordenadora de projetos especial na Multirio. “Acredito que todo mundo pode ser criador. Não só a criança. Esta questão é importante, os meninos e as meninas criam e pensam o tempo todo. É revolucionária sua forma de usar o celular para fazer animação, conversar com os amigos, se colocar no mundo”, comenta a animadora.

“Para se ter a expressão das crianças, não basta apenas conduzi-las em oficinas em que o tempo do adulto que dita a dinâmica, mas sim respeitar o tempo delas, com direito a aprender, processar, desenhar, criar, animar”, acrescenta Patrícia, que destaca em seu artigo Animação Maldita…Crianças Malditas… a forma como a criança foi classificada e tratada ao longo da história e cita exemplos de iniciativas que ensinam e valorizam a criação de animação infantil.

“Há ótimos casos, como o de Anima Escola (do Festival Anima Mundi, o mais importante do Brasil), Núcleo de Cinema Casa Amarela (do Ceará), o Departamento de Projetos Especiais de Animação da Multirio, como o Carta Animada pela Paz, o Espelho Lunar (na Bahia e Pernambuco), o Cinema no Rio São Francisco (em Minas), entre tantos outros”, comenta a diretora.

“O Brasil ainda tem uma vocação autoral, nosso grande exemplo é O Menino e o Mundo, que extremamente autoral e universal.  É a prova de que há lugar para tudo e para todos. É uma opção à tendência em voga atualmente, a de que se começa autoral, como curta-metragista, mas já pensando na indústria, na transformação de um projeto em série para a TV ou longa. Os fundos de pesquisa públicos ainda não pensam o curta como um trabalho autoral de pesquisa, mas sim voltados para produzir. Só que para se produzir é preciso um tempo de pesquisa, de elaboração e desenvolvimento. Somos nós animadores que precisamos dizer isso para que o poder público entenda isso”, conclui Patrícia.

O livro será distribuído gratuitamente para quem participar do lançamento.  Aliás, quem for ao evento, já pode retirar seu ingresso para a atração das 19 horas, quando ocorre a sessão Caminhos da Animação. É a chance para se assistir na telona clássicos do gênero, como o cult A Lasanha Assassina, de Ale Machado, Amigãozão, de Andrés Lieban, que deu origem à série que é um dos cases mais bem sucedidos de animação para a televisão, além de Historietas Assombradas para Crianças Malcriadas, de Victor-Hugo Borges, que também se tornou série de TV, e Laurinha, de Thomas Larson,

Passo, de Alê Abreu, autor de um dos mais belos longas de animação de 2014, O Menino e o Mundo, que já entrou em cartaz em diversos países e venceu o Festival de Annecy (o Cannes da Animação) no ano passado.

Em seguida, às 20h30, na programação do LabMIS, o público terá a chance de conversar com os diretores dos filmes  exibidos na sessão especial.  Com a coordenação do animador e presidente da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA), Cesar Cabral, o encontro vai discutir as perspectivas do curta de animação no Brasil e seus desdobramentos.

Toda a programação é gratuita. Mais informações, abaixo: 

18h – Lançamento do livro “Maldita Animação Brasileira”, de Sávio Leite.
O livro traz textos de Quiá Rodrigues (RJ), Leonardo Ribeiro (RJ/MG), Roberto Maia (SP), Diego Akel (CE), Caó Cruz Alves (BA), Christiane Quaresma e Marcus Buccini (PE), Patrícia Alves Dias (PE) e Márcio Junior (GO), cada um analisando diversos aspectos da animação brasileira e suas especificidades, além de dez entrevistas com expoentes da animação brasileira contemporânea, voltados ao recorte das produções independentes.

19h – Sessão “Caminhos da Animação”
A Lasanha Assassina – Ale Machado (Brasil-SP. 8’. Cor. 2002)
Uma lasanha é deixada no refrigerador e sofre uma mutação, tornando-se um monstro asqueroso.
Amigãozão – Andrés Lieban. (Brasil. 1’. Cor. 2006)
Dizem que não é certo falar amigãozão, mas eu não consigo achar um jeito melhor de falar do meu maior amigo.
Guida – Rosana Urbes (Brasil-SP. 11’. Cor. 2014)
Guida é arquivista há 30 anos. Sua rotina muda quando ela se depara com um anúncio de aulas de modelo vivo.
Historietas Assombradas (Para Crianças Malcriadas) – Victor-Hugo Borges (Brasil-SP. 15’. Cor. 2005)
Três histórias que sua avó não contou senão você faria xixi na cama.
Laurinha – Thomas Larson (Brasil-SP. 1’. Cor. 2005)
A amizade entre uma menina de 5 anos e um pedaço de massa de modelar.

Menina da Chuva, de Rosaria (Brasil-RJ. 6’. Cor. 2010)
Bonecas vermelhas para as meninas vermelhas, bolas azuis para os meninos azuis.

O Divino, de Repente – Fabio Yamaji (Brasil-SP. 6’. Cor. 2009)
Ubiraci Crispim de Freitas, conhecido por Divino, canta repentes e conta sua vida neste documentário animado com ficção experimental.

O Reino Azul – Otto Guerra, Jose Maia, Eloar Guazzelli Filho, Lancast Mota (Brasil-RS. 15’. Cor. 1989)
As atribulações de um tirano que, para fugir do tédio, decide pintar todo o seu reino de azul.

Passo – Alê Abreu (Brasil-SP. 4’. Cor. 2007)
Um pássaro e sua gaiola.

20h30 – LabMIS
Debate sobre os “Caminhos da Animação”, com o diretores da sessão.

* Jornalista especializada em cinema, atuou por mais de 15 anos como repórter de O Estado de S. Paulo. É colunista do canal Arte 1. No cinema, foi assistente de direção do curta 'O Caminhão do Meu Pai' (pré-finalista do Oscar) e dirigiu o documentário 'Karl Max Way'.

domingo, 26 de julho de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

REFERÊNCIA: LANÇAMENTO EM BH - REVISTA PONTO COM

Escrito por Marcus Tadeu | Publicado em DestaquesMatérias

http://www.revistapontocom.org.br/destaques/referencia-lancamento-em-bh

A animação brasileira vai bem, obrigado. Na verdade, muito bem. Que o digam os longas animados nacionais. Sucesso de crítica e de público no exterior. Um exemplo? O Menino e o Mundo, de Alê Abreu. O longa já participou de mais de 150 festivais internacionais. Na bagagem, 37 prêmios. Exibido em cerca de 80 países, é o terceiro filme brasileiro mais vendido para o estrangeiro. Os dados foram apresentados pelo próprio diretor da obra no Festival Internacional de Animação – Anima Mundi, no Rio de Janeiro.
Na carona do crescimento da animação brasileira, será lançado no dia 25 deste mês, na Livraria Ouvidor, e Belo Horizonte, o livro Maltida Animação, uma coletânea de textos, entrevistas e bastidores da animação. Segundo Sávio Leite, organizador do título, a intenção da publicação foi mapear no Brasil o que de mais significativo se produziu em termos de cinema de animação com a preocupação de abranger todo o território nacional e lançar luz para vários realizadores brasileiros.
“A animação brasileira vive uma boa fase com a produção de longas metragens premiados em importantes festivais internacionais como O menino e o mundo,de Alê Abreu,e ‘Uma história de Amor e Fúria’,de Luiz Bolognesi. Para o livro, convidamos pesquisadores de todo o Brasil paa refletir sobre o cinema de animação. Da produção alternativa do paulista Roberto Miller até a criação de uma escola em Goiânia, passando pelas produções feitas com e para crianças em um rico painel de experiências e realizações bem como as produções de conteúdo de dispositivos móveis e inserções de artistas plásticos na área de animação,como o caso do recifense Paulo Bruscky”.
Na primeira parte da obra, Leonardo Ribeiro, cineasta de animação mineiro com Mestrado em Design pela PUC-Rio, apresenta o texto “Bambi no ponto de ônibus”, no qual analisa a animação independente, experimental e marginal como meio de expressão e linguagem. Roberto Maia comenta sua aproximação afetiva como filho de Roberto Miller, um dos nomes mais conceituados na animação brasileira e dono de uma potente obra experimental premiada em Cannes.
O cearense Diego Akel analisa a produção experimental em animação a partir dos dispositivos móveis, numa experiência pessoal e autoral. O realizador Caó Cruz Alves trata sobre a produção baiana, seus principais realizadores, a importância dos festivais de cinema local como divulgadores dessa produção e dos editais específicos como incentivador, tanto em curtas como em longas-metragens autorais e criação de séries animadas.
Cristiane Quaresma e Marcos Buccini, pesquisadores ligados à Universidade Federal de Pernambuco, analisam a produção de animação e Super-8 no Recife da década de 1970, onde um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros, Paulo Bruscky, fez duas incursões no cinema de animação.
Márcio Jr., criador da Monstro Discos, do Goiânia Noise e da Trash – Mostra Goiânia de Filmes Independentes – e ainda Mestre em Comunicação pela UnB, fala da criação da Escola Goiânia de Desenho Animado e da MMarte Produções, cujas realizações andam movimentando o cinema de animação independente e revelando nomes como Wesley Rodrigues.
Patrícia Alves Dias, Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), formada em Cinema de Animação pela National Film Board do Canadá e fundadora dos Estúdios da Empresa Municipal de Multimeios da Prefeitura do Rio (MultiRio), volta seu olhar para várias iniciativas e pessoas cujo trabalho tem foco em animação feita com crianças, tanto no Brasil quanto no exterior.
Quiá Rodrigues debruça-se sobre o trabalho fronteiriço de Sávio Leite e Clécius Rodrigues, bem como dos parceiros que permitem a essa obra vir à luz.
A segunda parte do livro é composta por entrevistas com Marcelo Marão, Eduardo Perdido, Clécius Rodrigues, Otto Guerra, Arnaldo Galvão, César Cabral, Wilson Lazaretti, Mauricio Squarisi, Pedro Stilpersen Stil e Allan Sieber, nomes que também foram citados nos textos da primeira parte, criando uma conexão na eleição dos entrevistados. Na terceira parte, há fotos dessa produção.
“Creio que o nosso esforço, apesar do recorte estreito escolhido, venha a contribuir para o enriquecimento de nossa cultura, o reconhecimento de uma arte e de artistas que, mesmo premiados internacionalmente, ainda são invisíveis para a grande maioria da população”, destaca Sávio.