sábado, 10 de abril de 2021

Entrevista Garantia e hospitalidade cultural no tratamento temático de acervos de animação (Tese Doutorado)


Entrevista com Sávio Leite

27/04/20

SUNDSTRÖM, Admeire da Silva Santos. Garantia e hospitalidade cultural no tratamento temático de acervos de animação. 263.Tese (Doutorado), Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, 2020.  Disponível em: <https://repositorio.unesp.br/handle/11449/202883>


Admeire: Sávio, você me autoriza a gravar nossa entrevista

Savio: Autorizo sim. Você tá gravando? Tá ótimo! Então vamos começar já a conversar. 

Esse museu existe porque na verdade eu, eu faço um festival de cinema de animação aqui em BH, e esse ano vai completar 18 anos. E vou fazer também a produção dele, estou convidando um monte de filme, já chegaram um monte de filmes. E como a gente faz esse festival já tem esse tempo todo, já quase 20 anos, com o tempo eu vi que conseguimos constituir um acervo tanto de filmes quanto de livros, porque, além de ser professor aqui, eu faço animação também e faço esse festival. Então, é quase um combo assim com a animação, né. Além dos livros que eu escrevo também, que já agora, agora já está pronto. O ultimo é um livro que eu traduzi de um crítico cubano sobre animação que eu comprei em Havana, em 2017.  O livro já está todo pronto, diagramado, e autorizado a ser feito, mas assim a gente tá com medo de fazer agora. 


Mas, voltando ao museu, é o seguinte, é, com esses dezoito anos eu percebi que a gente tinha formado um acervo significativo tanto de filmes, catálogos e de livros que eu compro sobre cinema de animação. Com o cinema que eu faço, os filmes que eu faço, me dá oportunidade de viajar quase o mundo inteiro e em todo lugar que eu vou, eu pesquiso livro e compro, assim acabei de comprar um livro do Disney. Na verdade, eu sempre li sobre isso, mas eu achava que era quase uma lenda urbana. O Eisenstein pediu ao Disney alguns desenhos do Mickey para fazer um livro, ele achava o Mickey uma das coisas mais sensacionais que o homem já fez, entendeu, tipo é uma das grandes obras de arte que o homem já fez e, na verdade, assim tem gente que não gosta do Disney, porque ele é um cara que moldou de certa, forma esse imaginário coletivo. A gente, século 21, de uma forma que as pessoas até hoje é difícil tirar esse preconceito das pessoas, de que o animação é mais voltado para criança. Mas, eu estou fazendo essas voltas todas só para contar que eu comprei um livro dele em italiano, agora vou ter que aprender italiano na minha vida. 


Admeire: Mas não tinha em português? 


Sávio: Ainda não tem, mais eu achei mais fácil [o idioma] foi esse.  Mas eu também estive na Itália agora, comprei também uma coisa que, nossa, vou te mostrar ele. (Mostrou o livro). Eu preciso aprender Italiano. E como eu estive na Itália, novembro do ano passado eu fiquei com a impressão que o italiano é muito próximo da nossa língua. E deixa eu te falar um negócio então, eu percebi em 2016, eu comprei uma sala, que é em um lugar referencial aqui em BH. Não sei se você conhece BH, mas é um edifício que se chama Maleta, antigamente era um grande hotel, onde os modernistas vieram e ficaram hospedados e acabou no anos 60 e fizeram um prédio.  Você conhece BH?


Admeire: Sim. Fui duas vezes, mas não fiquei muito tempo para ser uma semana cada vez. 


Sávio: Então, a gente comprou uma sala nesse edifício Maletta, que acho um lugar referencial, e eu levei todo o acerto nosso que estava aqui.  Na verdade, quando eu comprei essa sala minha mãe ainda estava viva, eu assim, minha mãe nunca reclamou de nada, mas eu ficava com dó dela, porque chegava os livros e ficavam todos na sala. Aí, ficava meses uma pilha de livros, isso sim, e aí quando eu levei tudo lá para a sala [no edifício Maletta] eu vi que você é quantidade é grande, que é assim: são cartazes, são catálogos, são livros, DVD e VHS. 


Inclusive eu acho que até uma coisa interessante, já puxando uma coisa, puxando outra. Uma vez eu fiz uma retrospectiva do Vitor-Hugo Borges no Múmia [no festival], fiz há muitos anos atrás eu fiz uma retrospectiva dos trabalhos dele. Agora, em 2017, o festival internacional de curtas em São Paulo fez uma, uma edição toda que o tema era assim: O humor nos tempos de Cólera. E aí eu propus à diretora do festival fazer uma mostra retrospectiva de animação pegando esse tema. Aí escolhi um filme do Victor-Hugo Borges, um dos primeiros dele, aí entrei em contato com o Victor pedindo autorização, mas também pedindo a cópia e ele falou: “cara, eu não tenho mais esse trabalho”. E aí, eu tinha esse trabalho, eu achei tão gratificante porque assim é uma coisa que a gente começa como paixão, mas com o tempo vai adquirindo camadas. Olha que coisa mais interessante de um museu tem um filme de um cara, que hoje tá bombando, tá no Cartoon Network e a gente ter essa coisa que nem o próprio realizador tem. Ai eu falei [para ele mesmo] “cara, é importante, é importante concluir isso, é importante continuar fazendo isso.” 


Mas eu falo que o museu, ele existe enquanto uma ideia ainda, ele tem lugar físico, mas ele não é um lugar aberto. Às vezes eu recebo mensagem de pessoas lá na página falando: “olha, que horas é o funcionamento?”.  Não é hora de funcionamento, se você quiser conhecer quando vier a BH vou ter o prazer de te mostrar, mas a gente vai ter que combinar de eu ir lá e abrir a sala para você conhecer.  Ele tá super bonito, com todos os cartazes emoldurados. Eu falo que existe enquanto uma ideia, porque o museu não existe. Assim, mas essa ideia é uma ideia que eu acredito muito nela, eu já fiz o estatuto já tenho existe o estatuto. Eu acho que é de uma importância vital.  Agora, durante a pandemia, aconteceu assim tanta coisa, que aconteceu e tá acontecendo diariamente. E uma das coisas é que eu divido a sala com duas outras pessoas. Um dos caras disse que não está querendo continuar, disse que não sabe quando essa pandemia vai acabar e ali tá sendo um gasto.  E aí, a primeira coisa quando ele me falou isso, acredito que não tem nem 10 dias, eu falei: “Cara, melhor coisa eu acabar com tudo, vender a sala”. E aí, sabe o que aconteceu? Apareceu dois trampos, que é dois longas, que vou ficar trabalhando durante três anos, eu acho que esses longas vão ajudar a manter vivo esse museu enquanto uma ideia, entendeu?! 


Admeire: Mas acho que a própria divulgação do seu Museu, já vai te ajudar conseguir manter ele, uma divulgação a mais. Por exemplo, o pessoal lá do Pernambuco eles tem uma parceria com a Faculdade Federal, e aí em Minas, se eu não me engano, tem o curso de museologia, talvez se você conseguir uma parceria com a Universidade. Você pode até conseguir que se inventário, que esse processo de catalogação seja feita pelos próprios alunos sabe. 


Sávio: Mas deixa eu te falar: esse processo de catalogação já tem. Porque eu sou professor cinema de animação numa universidade particular aqui, a UNA. Foi a primeira a ter o curso de cinema, lá na Belas Artes só tinha cinema de animação e agora virou cinema de animação e mídias digitais, novos jogos, videogames, etc e tal. Então, e essa faculdade que eu dou aula é a UNA, eu já dou a 11 anos aula lá de cinema de animação. E aí, quando eu resolvi fundar mesmo, comprar sala, levar tudo para lá: eu consegui duas alunas que fizesse isso. Elas não fizeram dos livros, pois eu não tinha levado essa minha biblioteca para lá.  Mas elas já tinham inventariado isso [o acervo de audiovisual]. Aí elas catalogaram isso, eu posso te passar o estatuto, a catalogação de VHS e fita; e elas catalogaram algumas coisas tipo: catálogo, quantos exemplares de cada catálogo tinha e tal.  E ainda falta essa catalogação [dos livros]. Mas porque não? Essa sua ideia de ir atrás da UFMG, que eu posso ir até atrás, né, curso de cinema deles, ali da belas artes e ser também um aporte dos alunos. 


Admeire: Exatamente, um apoio. Eu acredito que eles vão gostar muito. E era exatamente isso que ia te perguntar se você já tinha feito alguma coisa, na verdade era das perguntas que eu ia te fazer, se você tem algum plano pro futuro do museu?  


Sávio: Você sabe que tem um curso um curso da ONU, que eu não fiz quando veio em BH, mas eu ainda vou fazer esse curso que chama: Memória do mundo. Eu tenho até que pesquisar mais, ver quando eles vão voltar aqui. Porque eu acho que essa nossa ideia ela se encaixa muito nisso dessa memória do mundo. [Pois] a gente é uma coisa que não é grande, não é pequena, é quase faz uma coleção particular, vamos dizer assim, mas que tem essa ideia de ser pública, de ser um museu mesmo, funcionar mesmo com um museu, eu acho que tem muito ver.  


Sávio: Olha, me veio uma coisa interessante que eu brinquei com essa história do VHS. Eu queria vendê-los, mas ninguém quis comprar. E depois eu falei “Não vou vender mesmo” [não vai se desfazer da coleção]. Porque sim eu tenho Miyazaki [se referindo ao animador japonês Hayao Miyazaki] aqui no original, me dado pelo Shimamoto, um grande cartunista brasileiro. Assim num primeiro momento eu não tinha lugar para guardar isso, mas depois, que ninguém aceitou, eu falei é meu. A primeira vez que eu vi todos os Miyazaki eu vi no original, nessas fitas em VHS e entendi os filmes todos, a mensagem do filme, embora falado em japonês eu entendi tudo. 


Só estendendo essa ideia do VHS. O Museu Nacional do Rio de Janeiro fez um seminário que teve um nome super bonito: Preservação de Vídeos para o Novo Milênio. Fizeram um seminário sobre isso. Como conservar essas fitas VHS que são coisas que as pessoas acham que é uma tecnologia hoje ultrapassada. Mas eu tenho VHS. Quando a gente se tornar um museu as pessoas podem ir lá para assistir esses VHS´s. Tem uma galera aqui de BH que estão fazendo uma mostra de cinema mineiro, e eu falei que tem que voltar lá e revisitar essas VHS.


Admeire: Você ainda não digitalizou nenhuma dessas fitas VHS?


Sávio: Ainda não. 


Admeire: Tem que fazer porque vai que, por exemplo, o conteúdo dele lá seja danificado aconteceu alguma coisa e VHS tem um processo de conservação que exige um pouco de manutenção então não sei também se é do seu interesse digitaliza-lo. 


Sávio: Seria, mas isso é dinheiro. 


Admeire: Exatamente! Poxa vida! Outra coisa que eu queria falar com você além do museu assim que você já me explicou mais ou menos o objetivo dele porque ele foi fundado. Eu queria que você me falasse também não é só questão do produto da animação porque assim dependendo da forma como a animação é feita ela vai gerar vários outros elementos, vários produtos e aí você, além de ser produtor tem esse museu. Queria que você me falasse como é que você faz para diferenciar assim: Qual desenho vai ser guardado? Como vai ser ou se é tudo que é produzido o importante? São só alguns elementos porque você tem outra produção pessoal e você tem um museu Então acho que para mim é muito importante a sua visão. Vai me ajudar muito na minha pesquisa. 


Sávio: Eu acho que tudo é importante, tudo é importante, eu acho que esse levantamento mesmo dessa produção é importante. Eu achei super interessante o livro lá do Marcos Buccini que fez o levantamento da produção pernambucana em Cinema de Animação. É uma coisa que eu poderia fazer aqui. Mas eu já fiz isso também, de uma certa forma o meu primeiro livro: Subversivos: O Desenvolvimento do Cinema de Animação em Minas Gerais. Eu já contei sobre isso, mas eu não fiz dessa forma detalhada. Eu só fiz o que tinha passado dentro do MUMIA. Tentei contar história animação mineira com o recorte do que tinha passado dentro do MUMIA e a fundação do Núcleo de Belo Horizonte. Eu acho que poderia se desenvolver uma coisa maior. É a intenção do museu preservar tudo mesmo assim.  Em 2017 pensamos uma coletânea de filmes mineiros com 10 filmes. Pagamos os direitos autorais 10 times mineiros desses 10 filmes. O filme Lumen de Wilian Salvador. O realizador era estudante da UFMG e teve um acidente de bicicleta, morreu tragicamente aos 32 anos. O filme é uma obra prima ganhadora de vários prêmios, inclusive no Japão. Mas voltando ao MUMIA. O Wilian morreu, e eu fiz a sua coletânea de filmes e fui atrás da família. A família não tinha nem noção do que é uma fita Betacam, o que é uma fita beta, ou mini DV. Embora eu tenha tirado foto das fitas, eles não deram conta de achar. Fui achar uma cópia do filme em formato VMW. Só pra você ver essa coisa da preservação. O filme é 2007, e não se passou nem uma década, a melhor cópia do filme já se perdeu. Wilian não teve tempo de falar com a família sobre essa coisa da preservação. Então, eu acho muito interessante essa coisa da preservação.  


O Daniel Queiroz de Belo Horizonte criou uma distribuidora de filmes e um braço dessa distribuidora será para distribuir filmes mineiros. Aí ele pediu meus filmes, e como eu estou aqui na quarentena nesse processo de revisitar as minhas coisas e colocar tudo em ordem. E depois, se você quiser, também eu já tenho uma lista já está 95% dele pronto e todos os links, assim com data.  Na verdade, assim essas coisas atropelam mesmo, essa pergunta como eu faço para ter um festival, para ter um museu, para escrever livros e ainda fazer meus filmes, como eu faço para separar uma coisa da outra? É uma coisa difícil de se separar. Aqui em casa eu quase não tenho nada. Eu peguei quase todos os filmes do MUMIA e levei para o museu.  


Admeire: Eu quero te perguntar sobre o festival, você me falou que são quase 20 anos de festival, e você me falou que tem esse acervo de filme, que é fruto do festival, você tem isso organizado, Sávio? 


Sávio: Ele está organizado até 2017. Eu fico me perguntando se eu teria que ter outros espaços só para Leite filmes, porque assim os meus filmes já participaram mais 300 festivais; já rodei muito. Tem meu blog (http://leitefilmes.blogspot.com), ele é meio confuso, mas assim você vai ver que tem muita coisa, muito festival, mas é possível ter uma noção.  Tem essa preservação dos filmes meus, isso eu estou conseguindo fazer, embora eu já tenha perdido algumas coisas também, mas a maioria eu estou conseguindo. E, engraçado você perguntar isso, das últimas vez que a sai de casa, encontrei um amigo meu daqui, músico, passou por muitas bandas e eu fiz um clipe de uma banda dele que não existe mais. Eu não tenho cópia desse clipe, e é só uma nostalgia, falando que Belo Horizonte é pura nostalgia. Aí esses dias eu disse: “vou perguntar para ele”. Eu já tinha perguntado aos outros a banda se alguém tinha uma cópia desse clipe. O nome da banda é RagnaRok. E o clipe que eu fiz uma estrela, assim no quintal da casa de um deles, colocamos pólvora e jogamos fogo. 


Admeire: Sávio, me fala então qual é o maior desafio que você está enfrentando agora esse acervo, é mais de espaço ou de pessoal? 


Sávio: Dificuldade agora é a manutenção porque eu vou ter que tirar dinheiro de outro trabalho para sustentar esse sonho, então é isso. E a outra dificuldade também é de pessoas, assim para trabalhar e pensar esse acervo e me ajudar a colocar isso para frente. Porque ainda não tive nenhum apoio formal, na verdade, já tive pedido formal de pessoas que vai lá, mas também pedi para ver filme específico ainda não tive. Mas também eu acho que no futuro seria bom ter um site, disponibilizar isso, fazer igual Anthology Film Archives lá em Nova York, um lugar que é raro, mas primeiro para ter um lugar assim que chame a atenção das pessoas. Eu acho que a animação não é ainda esse lugar.  



Admeire: Mas, por que você acha isso, que a animação não é esse lugar?


Sávio: Eu acho que ainda não é esse lugar pela própria aceitação da animação no mercado cinematográfico, de uma forma geral. Aceitação das pessoas que trabalham com cinema. A galera que eu conheço que trabalha com cinema, embora já tem muitas pessoas que já são conscientes e até eu acho que como eu trabalho como professor em mostrar esse outro lado de animação formando jovens, pessoas mais conscientes para animação. Mas não é ainda um lugar de pertencimento. Pode ser que eu tenho essa impressão e na verdade não existe isso. 


Admeire: É porque eu vi numa entrevista sua, e também foi a mesma coisa que os meninos lá do Muca me falaram. É que, quando fala em animação no Brasil, além das pessoas associarem com criança, eles associam a Disney, a mangá. Então existe todo esse preconceito por trás. Então, quando fala animação brasileira, ainda é uma coisa que está se consolidando, pelo que eu estou reparando, então isso pode estar também influenciando. Eu tenho outra pergunta: Eu só queria saber se, por exemplo, o material que você escolhe para produzir animação 2D ou 3D, Stop Motion, ou qualquer que seja. Você acha que isso influência no você quer transmitir na mensagem que você dizer? 


Sávio: Total, Eu tenho até uma coisa que eu quero desenvolver sobre isso. Aí você me desculpa, mas eu sou todo desfragmentado mesmo. Mas, tem duas coisas que eu queria te dizer: o festival que eu faço não tem curadoria. Aceitamos tudo que é animação. Aceitamos e exibimos. Eu vou te falar que talvez não exibimos tudo, pois tem acontecido, nas últimas edições, que as pessoas mandam filmes que não é animação, mas finge que é animação só para passar em algum festival. Sabe que em nosso festival passamos tudo, mas é pouquíssimo que a gente tira. E eu tenho uma ideia sobre isso, que é uma ideia que chama anticuradoria. É uma ideia que eu ainda pretendo desenvolver de uma forma séria, referenciado em pensamentos de outras pessoas de pessoas reconhecidas. É uma coisa que eu ando coletando informação sobre isso. E talvez até essa conversa com você seja o estopim, porque agora nós estamos na quarentena e há tempo para quase tudo. Eu vou anotar aqui, se der tempo, eu estou lendo Moby Dick, e ainda fazer esse texto sobre anticuradoria, que eu acho uma coisa super importante. Que pode parecer uma bobagem; mas, se for pensado de uma maneira séria. Nossa anticuradoria funcionava assim: Ia chegando filme brasileiro, dava uma hora de exibição partia para o próximo programa. Então, a programação era aleatória, é um festival dadaísta, no fundo. Dava uma hora de animação, passava para o segundo bloco de animação. E as internacionais, quando conseguia, mas o com o tempo [o festival] foi crescendo, crescendo que saco que cresceu tanto [tom de humor e ironia]. 


Admeire: Mas que bom, que fica crescendo. 


Sávio: E como cresceu! Eu chamei pessoas para montar esses programas, porque pode acontecer o seguinte: você é o público, que nunca viu animação em sua vida, vai lá assistir um festival de animação e às vezes, essa forma aleatória. 


Admeire: Não se preocupe, tá tudo bem. 


Sávio: Acho que tudo isso é importante, quando a gente criou o festival as pessoas me falavam “você é louco, criar um festival que aceita tudo, porque vai vir muita coisa ruim e você vai ter que colocar”.  Mas, com o tempo, eu percebi duas coisas em animação: geralmente os filmes de animação são pequenos, então numa hora de programa, mais ou menos, rende em média de 8 a 10 curtas.  Se você coloca algo ruim, eu não gosto dessa palavra, mas eu coloco um curta ruim, dentro da programação as pessoas não vão lembrar, ela vão se lembrar só aquelas maravilhosas e esses [considerados ruins] vão passar despercebidos. A não ser que a pessoa é muito aborrecida e vai se aborrecer com filme de 2 minutos, mas pode acontecer. E achei que para contrabalancear, mas mesmo assim eu vi muito filme muito ruim em algumas edições. Nossa, teve algumas seções que eu entrei e pensei: “Eu tive dó do público, eu esperei na porta do cinema para pedir desculpa [risos].  Mas, por outro lado, tem gente que vai o festival por causa disso, vai porque quer ver este tipo de filme que não vai ser em lugar nenhum mais. Mas a sua pergunta era outra coisa e eu me perdi aqui.


Admeire: A minha pergunta era sobre a técnica que a pessoa utiliza. Se influencia no que ela quis dizer, e você falou desses exemplos. 


Sávio: A técnica ela influencia demais. Assim eu, eu tenho uma tese pessoal sobre isso também, que se gente pegar tudo que você gosta na vida, as suas referências. Se você pegar música, por exemplo, eu sempre gostei de Sonic Youth, que tem um som que é completamente desfragmentado, é outra coisa. Eu estava escutando esses dias que eu não um tempo que não escutava,  que eu gosto demais”, e agora fez uma TV na quarentena, que é o Nick Cave. Eu sempre gostei de músicas desconstruída e tal, música que fora do circuito das pessoas, que as pessoas achava que era barulho e tal eu sempre gostei desse tipo de música. E agora se pegar literatura, eu gosto de Bukowski, aquela lama toda que ele narra. Gosto de todos os Beatniks, eu gosto é disso na literatura.  Aqui no Brasil eu gosto daquele O vampiro de Curitiba, o Dalton Trevisan, que escreve aqueles livros todos mostrando que assim o ser humano é uma m**** , o ser humano é perverso. Aquelas empregadas domésticas que coloca pó de vidro na comida das pessoas [menciona um trecho da obra de Dalton Trevisan, no qual é uma ficção], eu gosto disso, e eu acho que para fazer cinema essa influências todas vieram. 

Quando eu descobri a animação, na verdade, eu falo que eu já gostava de duas coisas muito importantes. Dois caras que gosto muito importante e são importante para essa arte até hoje: um é o Glauber Rocha e o outro é o Godard. Eu gostava desses caras porque o Glauber Rocha, porque ele queria atingir o povo, mas nossa, fez aqueles filmes herméticos, malucos, cheia de gente maluca, os filmes dele são todos malucos. O cara é tipo um iluminado maluco, as histórias dele eu li Cartas ao mundo, nossa, eu entrei em depressão, eu chorava com aquelas cartas. A vida dele, vida de um autor grande, que sofreu muito para, assim, colocar as ideias dele. E outro cara que eu gosto de ver, que as pessoas têm antipatia, mas eu gosto de ver, e que tenho grande admiração por ele é o Godard. Os filmes dele são difíceis mesmo, são filmes assim que te desafia você a gostar. Embora você vê o primeiro dele O Acossado, é maravilhoso, é um filme todo narrativo.  Mas os outros filmes dele são filmes difíceis. Às vezes mostra uma imagem, aí vem palavras, aí vêm e entre pessoas falando coisas desconexas. Eu gosto é disso. E quando eu fui fazer animação, olha para você ver, a minha primeira coisa para fazer animação foi entrar no curso de roteiro na UFMG, foi um curso em 1995. A UFMG quis fazer o Menino Maluquinho em 3D, compraram computador e chamaram pessoas legais, gente muito interessante aqui de Belo Horionte, jovens, para fazer esse curso de roteiro para 2 anos. O curso era quase uma especialização em roteiros, e aí eu fui para lá fazer esse curso e vi o Tex Avery. Eu falei é isso que eu quero fazer agora, eu quero unir Tex Avery, Glauber Rocha e Godard. Eu quero fazer esse tipo de cinema. Eu queria fazer: Glauber Rocha, Tex Avery e Godard, junto em um filme de animação. 


Admeire: E Bukovski 


Sávio: Com Bukovski. Com John Fante e todos os Beatnicks e Dalton Trevisan. O Godard (Jean-Luc Godard, cineasta) é até hoje um cara que as pessoas têm um ódio dele. Aquele filme com a Agnes Vardá, que ganhou o Cannes, ele fez uma coisa com a Vardá que é deplorável, e eu achei o máximo ele ter feito aquilo. Ela doida para encontrar com ele, ele deixa um bilhete, que você nem vê o bilhete, mas ela chora lendo o bilhete. “Que cara é esse? marca comigo e não aparece”. Mas eu adoro jeito dele, mau e perverso. Eu acho que é isso. Eu fico brincando com os meus alunos que Tex Avery e os filmes dele é uma coisa que eu quero desenvolver também. Que toda aquela turma da Warner: Tex Avery and Chuck Jones, principalmente, eles são os pais do bullying. Porque aqueles filmes dele, até hoje, você vê muita dose de violência.  E violência de todas as formas: física, psicológica e sexual. E é muita violência, muita violência.  E a gente foi criado, eu fui criado assistindo isso, eu tenho 49 anos e fui criado assistindo isso. Via o Tex Avery na televisão e quando a gente é criança a gente não percebe. É isso que eu acho que é o grande buraco da animação. Eu não tenho filho, por isso que não sei assim, mas os pais de hoje acham que esses meninos estão assistindo tudo inocentemente. Tipo assistindo a Hora de Aventura, inocentemente; assistindo O Incrível Mundo de Gumball, inocentemente.


Admeire: Eu li aquele livro Para ler o Pato Donald e esse livro fala justamente isso. Ele fala que as pessoas trabalham na animação algumas de nossas frustrações pessoais.  Então a gente leva tudo aquilo para as crianças, que estão vendo o adulto de outra geração. Então elas estão lidando com problemáticas de outra geração ou enfim qualquer outro aspecto que animação. Sávio, posso usar as fotos do seu museu na minha pesquisa?


Sávio: Pode! Agora vou precisar sair. 


Admeire: Sem problemas. Obrigada pelas informações.


Sávio: eu tenho o maior prazer em conversar contigo, conversar e falar tudo, mas eu acho que é importante para mim você tá fazendo isso. Você está aí na Suécia é mais uma importância do meu trabalho também tem uma pessoa interessada nele e eu também agradeço. Qual livro você tem meu?


Admeire: Eu tenho  o Maldita Animação Brasileira.  Muito obrigada!



Entrevista PARTE II Sávio 06/05/2020


Admeire: Sávio, bom dia. Obrigada por aceitar falar comigo de novo. Terminei nossa primeira transcrição e percebi que alguns pontos precisam ser esclarecidos. Gostaria que você falasse um pouco sobre as influências na produção, a importância da animação participar de festivais e eu vi seu canal no Youtube, o Leite Filmes (https://www.youtube.com/channel/UC6QFtVjYgujlLam9l7UspAA ) . Eu gostaria de saber se tem alguma diferença entre os filmes do Múmia e do Leite filmes, nessa questão dos acervo aí do museu. E também se você já trabalhou em alguma produtora, eu gostaria de saber como funciona a questão da organização e produção de documentos dentro das produtoras de animação.


Sávio: Então, vamos lá começar as influências. Eu me considero influenciado por Tex Avery e pelo pessoal da Warner. Eu acho eles muito interessante, o jeito que eles fazem filmes e pegavam histórias que eram conhecidas  e pervertiam a história de alguma forma em virtude da animação. Chuck Jones quando ele era criança ele era vizinho dos estúdios do Buster Keaton e ele ia todo dia de manhã para ser figurante, mas na verdade ele ia mais  para filar um almoço lá. Quando criança não estava preocupado com essa coisa de cinema, mas essa é a saída, todos os dias aos estúdio do Buster Keaton vai influenciar muito na feitura dos filmes deles. Eram os filmes deles que via quando criança na televisão aberta brasileira. E quando criança eu adorava, mas aí quando a gente fica adulto e revisitando o passado vê que esse filmes eram muito subversivos. Mas a gente vê uma grande quantidade de assuntos adultos que estão ali. Eu considero Chuk Jones e Tex Avery como os pais do bullying, porque eles vão ter uma dose de violência muito grande e não é só uma violência física, mas uma violência psicológica. Então quando eu comecei a me interessar pelo cinema de animação e fui fazer um curso de roteiro na UFMG que eu pude conhecer como esses caras eram muito subversivos. Aí eu cheguei à conclusão que, na animação, você pode ser ainda mais subversivo. Depois eu posso considerar também uma das minhas influências minha o Otto Guerra, o nosso maior animador. Um cara que já tem mais de 40 anos do estúdio e quando eu tive contato com a obra do Otto e eu também achei muito interessante. Na verdade a gente fez uma retrospectiva dele no terceiro MUMIA. Ele veio e aí foi um caso de amor artístico assim, porque ele tem uma vida muito interessante dele assim construir uma carreira em Porto Alegre, longe dos grandes centros e conseguiu fazer uma vida toda com animação. Ele conseguiu fazer uma obra grande, fazer longa, e, além de tudo, fazer uma produção voltada para um público mais adulto. Então, eu considero o Otto também uma das minhas influências. 

Mas, como eu tinha te falado, eu acho que as influências não são só cinematográficas. As referências também vêm da literatura subversiva e underground. Pergunte ao Pó do John Fante é um soco no estomago. Tem um livro que eu considero de referência O teste do ácido do refresco elétrico do Tom Wolfe porque é na verdade uma arte fora do circuito, fora do mercado, fora das restrições que quase todo mundo tem. Quero fazer uma pesquisa aprofundada de todas as artes do Underground. E eu acho que essa influência tanto dos meus filmes e do MUMIA  tem essa prerrogativa de dar visibilidade ao underground. Mostrar toda essa produção que tem invisibilidade por outros circuitos e a nós conseguimos mostrar. Eu tenho uma certa dificuldade em separar o lado pessoal do artista. Tenho uma certa dificuldade mesmo. Eu tenho até uma certa dificuldade em separar tipo, por exemplo, uma pessoa que eu gosto e essa pessoa ser uma pessoa reacionária. Eu tenho certa dificuldade para separar isso, a personalidade da pessoa da obra dela. É assim, eu acho que é cada vez mais essa distância ideológica, ela vai sendo, vai ficando mais forte com o tempo. As pessoas acham isso errado. Vejo muitas pessoas falando disso que isso é uma coisa errada que temos que se separar a, a obra do artista, mas eu não consigo. Eu acho que tudo é um é um todo indivisível. Até tento gostar e continuar gostando, mas quando eu descubro isso, desgosto. Eu não quero fazer propaganda de nenhuma pessoa e me relacionar com esse tipo de atitude, embora eu faço um esforço. Engraçado que eu estava com um primo  primeiro da infância, Emerson Leite, dois anos mais novo e que faz aniversário no mesmo dia e  é músico. Um dia desse ele fez uma live e cantou uma música do Smiths não tem como falar com a música é ruim. Eu ainda gosto das músicas. Talvez esse é o único caso que eu consigo separar assim o artista da pessoa.  Até o próprio Jack Kerouac também é um dos meus ídolos da geração Beat. Eu ainda não li sobre isso, tenho até aqui uma biografia dele, mas me disseram também que ele ficou reacionário no final da vida. Eu acho um contrassenso, com a proposta da literatura dele. E infelizmente, de um tempo para cá, temos nos deparados com isso. As pessoas perderam o medo e resolveram falar mesmo abertamente que são reacionárias.  


Sávio: Aí você me fez uma pergunta é que é como eu diferencio a Leite filmes do acervo do Múmia?


Admeire: Isso, eu queria saber na questão do acervo. Como é que você guarda eles lá e por que. Em um momento da nossa primeira conversa você falou: “ah eu também vou precisar de um espaço só para Leite Filmes.” Eu gostaria de saber um pouco mais sobre isso. 


Sávio: Eu tenho uma certa dificuldade mesmo com essa diferenciação, mas eu tento ao máximo, por exemplo, não passar filme meu no Múmia. Pode ser que eu já passei um ou dois, mas depois eu cheguei à conclusão que tinha que diferenciar essa coisa mesmo. Porque pega feio. Eu vejo isso acontecer em outros festivais e eu acho feio. Então eu cheguei à conclusão que também eu não precisava fazer isso também. Já que, apesar do festival ser mais aberto, exibir tudo, então tem essa brecha e receber todos. Mas, eu acho que mesmo assim eu tenho que ter cuidado para não misturar as coisas da minha profissão pessoal e desse festival embora quanto ao museu há um acervo, eu acho que não tem problema isso. Eu guardar meus filmes lá no acervo, mas assim eu acho que eu preciso mesmo ter outro espaço para a Leite Filmes. Mas eu acho que não tem problema guardar junto do museu porque afinal eles fazem parte de uma produção mineira feita aqui no Estado de Minas Gerais. Então não tem porque eu não colocar. Mas, quanto à Leite filmes, os festivais, os catálogos, os troféus. Acho que não convém colocar também no museu, isso é uma coisa para uma produtora. Então eu acho que eu não vou fazer essa confusão. De colocar uma coisa junta com outra. Embora os filmes podem entrar. Eu só coloquei os que eu tinha em mídias físicas em DVD e VHS. Enquanto é realizador é possível pensar no caminho dessas mídias. Eu costumo brincar com os meus, meus alunos porque quando eu comecei a fazer filme a gente mandava fita VHS pelo correio. Era bem pesado. No meio da caminhada; mudou isso para trás DVD. Caiu pela metade o quanto gastava com correio E hoje em dia tudo é online Até a próprio festival hoje não se faz mais por mídia física. Você manda o link, o link do YouTube, do Google Drive ou de qualquer outra forma similar de armazenamento de imagens. Então você não precisa mais gastar com correios. Isso já não é mais preciso, é tudo na rede.

A terceira questão é a importância dos festivais que é primordial para qualquer realizador cinematográfico. Primordial porque é o único espaço ou, talvez um espaço primordial, de estar exibindo isso. Existe hoje site de compartilhamentos de material, por exemplo, o YouTube. Aqui no Brasil a gente tem o Porta Curtas também que é um site que foi mantido por muito tempo pela Petrobras. Mas hoje já não é mais; mas, é um site de compartilhamento de termo de curta-metragem no Brasil. Mas, assim, os festivais são ainda a grande janela, porque a televisão também é muito pouco. Eu tenho 40 filmes, só um que eu consegui vender 2 para o canal Brasil. Então é uma realidade que é mínima. Difícil viver de vender conteúdo para televisão, então o lugar melhor, especial, para exibir são os festivais e a gente teve um boom de festival no Brasil. Dos anos 2000 até agora. Mais e um festival de cinema acontecendo todo mês, e parece que teve uma coqueluche dessa no mundo. Então, por exemplo, é importante o meu filme lá o Vênus: Filó a Fadinha Lésbica e estrear no Festival de Berlim. A melhor coisa que pode acontecer com você porque lá se reúne todos os profissionais de cinema do mundo. Então, é uma grande janela, muita gente vai ver seu filme. Lá recebeu mais de 50 convites, pessoas que tinham visto. Podemos  dizer um canal mais viável, porque justamente com o crescimento do número de festivais, de lugares onde tem festival de cinema, também aconteceu o boom do crescimento da produção. 


Admeire: O que é você falou do Leite Filmes. Para não colocar junto do museu, Mas, se a gente for parar para pensar no museu enquanto o museu cabe uma exposição só sua ali, tipo uma parte só do seu conteúdo. Eu não vejo como algo errado ou como algo ruim. Eu acho até importante em uma parte ali ter sessãozinha só com as coisas que você produziu e a outra só com as coisas do mundo. Pode pensar enquanto im espaço para tudo isso. 


Sávio: Eu fico com receio da opinião alheia. Vai ter pessoas que vão falar: ele tá querendo se promover em cima de outra coisa. Vai ter muita gente para falar isso. Então eu tento, na verdade, fugir dessa coisa. Fugir desse olhar alheio. Eu sei que eu moro numa cidade que as pessoas falam mesmo. Engraçado que eu tenho uma amiga aqui em Belo Horizonte, ela tem um grupo de teatro há mais de 40 anos. Ela sempre fala uma coisa assim: as pessoas falam de você pelas costas, elas não têm coragem de chegar à frente de você falar. E é verdade, sempre se sabe pelo outro e ninguém tem coragem de chegar para você falar. Mas falam do mesmo jeito. Ela coloca as coisas assim: Eu inventei esse negócio, mas também quero divulgar meu trabalho. Mas eu sempre fiquei com pé atrás nisso para evitar esse disse-me-disse. Porque as pessoas não têm coragem de falar abertamente. Mas elas falam pelas costas 


Admeire: Entendi, a outra coisa para mim te perguntar, uma outra conversa, era essa questão das produtoras que você me falou. Que quando a gente está produzindo animação, já é muito. Muita coisa que você falou que é importante guardar. Na verdade quando você pensa em uma animação final para chegar até ela teve todo um percurso. Seja desenho 2D ou Stop Motion E aí eu queria saber desse ponto de vista da produtora mesmo, se esse problema de não ter onde guardar. De não ter ou ver a importância disso. È só da parte dos animadores independente ou você acha que isso é um problema para todo mundo que produz animação? Esses documentos gerados durante a elaboração de animação


Sávio: Eu acho que isso é um problema de todos os todos os produtores o como guardar, como armazenar, e daí, a partir do momento que vai se produzindo mais e mais e a coisa vai ficando mais difícil. Eu sempre tenho que começar uma coisa experimental, underground, sempre é um jeito de ser assim, o ser underground, mas tem certas coisas que eu sempre evitei. Ter uma produtora era um dilema. Sempre quis fazer as coisas de maneira mais independente e alternativa. Mas chegou o momento que isso já não dá mais. Durante anos a Leite Filmes funcionava enquanto uma manifestação artística. Mas agora ela existe. Entrei em dois trabalhos: Produtor executivo no filme Placa Mãe de Igor Bastos desenvolvido em Divinópolis no interior de Minas Gerais e Diretor de arte no filme O filho da Puta, uma coprodução da Anaya e a Otto Desenhos Animados. Eu tive que fazer essa produtora para receber e também. Então, não é tão fácil ser underground. Porque nós criamos o MUMlA para ser underground e ele crescendo, crescendo, eu sempre recusando esse crescimento. Mas tem uma hora que não dá mais. Você se profissionaliza mesmo. Eu não quero dizer que eu nunca fui profissional, mas agora é CNPJ. Então tem uma hora que não tem como mais fugir disso e vou ter que encarar isso de uma maneira suave, para não sentir culpado de ter uma empresa. 


Admeire: Conversando com você me veio na cabeça essa, essas inscrições que você recebe. Tem momento que você falou que elas são nacionais e internacionais. Mas assim são produtores independentes que enviam para o Festival ou geralmente é bem diversificado?


Sávio: Então, é bem diversificada, tem uns os realizadores que são bens independentes. Que é uma grande parte, que só vão exibir aqui no MUMIA. Mas também aceitamos animações profissionais e premiadas, inclusive internacionais. A grande maioria são filmes que rodam festivais que eu acompanho e peço. Por exemplo, tem o pessoal da Holanda e da França. Sempre há algum filme querem cobrar, mas nós nunca temos grana para pagar. Então se formos analisar eu poderia que 75% são filmes consagrados e 25% são os filmes feito de forma independente. Ás vezes percebo também que tem filmes muito premiados que não querem exibir no festival underground porque já ganhou vários prêmios e não significa nada exibir um filme no festival underground. Mas para nós é importante exibirmos, Fazemos um festival Underground no Brasil, com todas as dificuldades possíveis e esses filmes só teriam condições de chegar aqui através do festival; porque, de outra forma eles não chegam. Então, para nós que fazemos animação, que quer movimentar essa cena, é importante embora para o realizador; possa não ser tão importante assim, porque isso vai além de se tornar um festival com a sua respeitabilidade.  


Admeire: Importante também exibir e também essa questão da própria, é como você disse: o festival já tem 18 anos. O percurso que ele já percorreu tem muita relevância para memória da animação no Brasil porque toda vez que eu vou conversar com alguém, ou que vou fazer alguma pesquisa, eu tenho dificuldade para recuperar algumas produções que já foram feitas no Brasil e eu acredito que o seu festival e outros também têm bastante importância para a história da animação no Brasil. Quando eu estava pesquisando a história da animação para escrever na tese eu consegui encontrar poucos livros, mas que pararam até 1970. Eu não entendi porque que parou em 1970 e o que de 1970 para cá? Então eu acho que é muito importante tanta documentação desse acervo que vocês têm quanto a elaboração do festival 


Sávio: Olha, vou te falar duas coisa do MUMIA. Por ele receber os filmes, por ele exibir essa produção brasileira, de uma forma que não tem restrição, que não tem uma curadoria, percebi que o pessoal me dá aval de falar em nome da animação brasileira. Porque talvez a gente é o único festival que exibe essa produção de uma maneira completa. Então isso, com um tempo eu vi que deu a MUMIA uma respeitabilidade para conhecer essa produção e falar em nome dessa produção. Fizemos algumas mostras em alguns festivais internacionais, por exemplo, em Tampere na Finlândia, Colômbia, Chile, Portugal (Monstra), Oslo. E aí é uma coisa interessante porque analisando esta produção, a gente vê de tudo. Mas quando eu vou fazer essas mostras especiais dá para fazer uma seleção só de filme bom. Então é essa produção que a gente exibe. Se a gente fizer essa seleção exibimos o melhor dessa produção. 


Admeire: Eu quero refletir um pouco também nessa questão dos festivais internacionais. Eu ainda sinto que no Brasil o  pessoal agora, com essas plataformas online, eles dão muito mais glamour e atenção para o que essas plataformas exibir vamos do exemplo da Netflix vs animação, tá. Ali no Netflix, de alguma forma, parece que atrai o olhar de maior respeito seja ela para o público adulto ao público infantil. Porque a gente percebe a maior comoção nas redes sociais falando dessas animação, então dá impressão que esse streaming ou a televisão ainda é importante para demonstrar que aquela produção é importante de modo geral. 


Sávio: The Midnight Gospel! É absurda, é maravilhoso. É tipo a animação que eu queria fazer. Nessa quarentena eu fiquei pensando em como bombar um canal do YouTube. Fiquei pensando em até a criar um programa no YouTube. Um canal focado em animação em entrevistar animadores.  Fazer análises de filmes de animação Estou pensando sobre isso não sei se eu vou fazer ou não. 


Admeire: A ideia é ótima. Divulgar um pouco mais a questão da animação brasileira. Porque, quando a gente dá uma pesquisada em canais que falam sobre animação, são poucos ou então é o pessoal que não tá tão envolvido na questão de produção. Porque, quando eu digo a questão da produção, a gente tem que pensar também o contexto brasileiro que não é todo mundo que tem acesso às grandes tecnologias que já existem para fazer animação. Então seria legal mesmo que essa versão mais underground do processo de produção animação de produzir animação. 


Sávio: Você comentou e eu concordo plenamente porque como sou professor de animação,  Quando eu comecei a dar aula só existiam dois livros de animação no Brasil. E existe um livro do Alberto Lucena Júnior, que é sua tese de doutorado chamado A Arte da Animação - técnica estética através da História . Um livro até de boa por ser uma tese de doutorado. Então, é um livro interessante porque ele fala com uma linguagem simples. Então, quando eu comecei, eu adotava esse livro, mas eu comecei escrever outros livros por causa disso também. Eu falei já que ninguém conta essa história serei eu a contar história também. Por isso que eu comecei a fazer esses livros e aí achei que fazer livro também é divertido. Divertido e tão importante quanto fazer filmes. Gasta um tempo longo de maturação. Corrigir, mandar para um revisor e aí revisar o revisor. Fico imaginando o revisor de Moby Dick. Mas eu acho que é importante também falar dessa produção porque de outra forma essa produção quase não existe documentada. Não existe muitos livros sobre isso. Importante fazer. 


No meu último livro tem um texto de um professor daqui, Mauricio Gino. Aqui em Belo Horizonte existe um espaço chamado Espaço do Conhecimento, pertencente a UFMG e instalado em um espaço simbólico que é a Praça da Liberdade. Eles têm um painel digital, feito com 12 projetores e projeta imagens no espaço externo. Nós temos uma parceria de  5 anos com eles. Eles escolhem as animações todo ano do MUMIA e ele escreveu um texto sobre isso onde compara essas exibições com outras exibições de vários outros telões no mundo. 


Admeire: Então, de qualquer forma, quando for ao Brasil vou para conhecer o museu.


Sávio: Venha, será bem vinda. 


Admeire: Sávio, muito obrigada por tudo!


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021