quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

UMA INTRODUÇÃO AO CINEMA UNDERGROUND AMERICANO de Sheldon Renan

Há décadas o cinema underground é uma realidade estabelecida na produção audiovisual mundial. Existem pesquisas, escolas, obras canônicas, diretores consagrados e fortuna crítica acerca desta vertente do cinema que prima tanto pela liberdade quanto pela transgressão. Em 1967, quando An Introduction To The American Underground Film foi lançado, a história era bem diferente. Naquele momento, o filme underground esboçava suas primeiras experiências em solo norte-americano, e foi o escritor Sheldon Renan o responsável pelo primeiro livro sobre o tema.

 

Sheldon foi testemunha ocular do fenômeno e teve a sensibilidade de compreendê-lo como um acontecimento novo e revolucionário no campo das artes. Em seu tratado, discute o que de fato é o filme underground, além de construir uma história do cinema de vanguarda na América. Nomes hoje consagrados como Kenneth Anger, Ken Jacobs, Marie Menken e Andy Warhol fazem parte da galeria de cineastas elencada na obra, que ainda discute o establishment do underground, além de lançar as bases do que viria a ser o cinema expandido.

 

Com uma única edição no Brasil – lançada em 1970 e fora de catálogo desde então –, Uma introdução ao CINEMA underground americano finalmente retorna ao nosso mercado editorial, em mais uma parceria entre a MMarte (www.mmarteproducoes.com) e a Leite Filmes (do lendário cineasta e produtor cultural mineiro Sávio Leite). Mais do que uma obra paradigmática sobre o cinema underground, o livro é o resgate histórico do registro de um movimento que se mostrou amplamente influente, feito no calor do momento.

 

A nova edição de Uma introdução ao CINEMA underground americano traz as seguintes características:

- Prefácio exclusivo de Sheldon Renan para a nova edição brasileira;

- Reprodução do histórico texto Filmes, Beijos & Bêbados de Sheldon Renan para a revista Monitor em 1965;

- Nova tradução do pesquisador e crítico Carlos Primati;

- Apêndice organizado por Carlos Primati com todos os filmes mencionados na obra;

- Capa exclusiva feita pelo artista visual Jaca;

- Edição fartamente ilustrada;

- Formato 15,5 x 22,5 cm;

- Papel Pólen;

- 244 páginas;

- Capa normal (brochura) com reserva de verniz.


 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

LACRIMOSA - VIDEO ART MHAEN FROZEN Grécia



https://techno-logia.gr/dt-pr-frozen-provoles-vinteotechnis-apo-to-video-art-miden-sto-pikap-thessaloniki/?fbclid=IwAR3sjktFg13SyGa3JbxwQakUv4EZBgwY6uIzBWhAO3UKDVDs5R-j7J6ow1A


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Relato da exibição de filmes de Sávio Leite / EBA / UFMG / 09/12/22

 


Por Pedro César Cupertino e Silva


Sávio Leite é, sem dúvidas, uma figura icônica no cenário de animação nacional, com um jeito despojado ao falar sobre seu próprio trabalho e até cômico, quando vez ou outra pede desculpas por exibir alguns filmes que o mesmo julga como ruins. Sem escrúpulos ao falar sobre suas temáticas e técnicas, Sávio explora caminhos na animação que poucos se permitem trilhar, sua paixão pelo experimentalismo é contagiante, selvagem, violenta e nos arranca da zona de conforto como um potente soco na cara. 

Antes de assistir a mostra de seus filmes no auditório da Belas Artes, eu não o conhecia, mas esperava algo comum ou comercial de algum veterano na animação convidado pelo professor Pedro Aspahan. Não foi o caso. Fui apresentado a filmes toscos, undergrounds e completamente pirados e esquisitos. Sou um grande fã de coisas esquisitas, então eu fui fisgado pelo trabalho do Sávio e aquilo me inspirou o tempo todo enquanto eu assistia a seus filmes. 

Me impressionou muito a diversidade de técnicas de animação utilizadas nos filmes do Sávio, desde animação 2D tradicional, stop motion e até rotoscopia feita de maneira digital. Quase sempre eram obras não-narrativas e inspiradas em mitos gregos e literatura erótica, temáticas pouco abordadas no campo da animação que, infelizmente, ainda é vista como uma coisa para crianças. 

O primeiro filme que me chamou atenção foi Terra, de 2008, com uma animação tradicional feita com lápis de cor em cima de colagens e papéis sujos e borrados. Trazendo o forte texto do Sérgio Fantini, a obra apresenta diversas cenas do cotidiano das mais variadas formas, explorando o surrealismo através da animação e trazendo ideias sobre as diferentes vivências do povo a partir da luta de classes. A visão anticapitalista transborda para todos os aspectos do filme, fazendo uma síntese incrível entre forma e conteúdo. 

O segundo filme, Vênus: Filó a fadinha lesbica, foi criado por meio da técnica de rotoscopia digital através de gifs pornográficos encontrados na internet. Esse é um dos que mais me impressiona, se baseando no texto erótico da Hilda Hilst e criando imagens selvagens que expressam muita rebeldia contra uma sociedade conservadora. O filme conta com algumas cenas que se repetem no decorrer do texto interpretado, junto ao vermelho forte que brilha na tela e traz  uma sensação de incômodo e ao mesmo tempo, hipnose, tirando o espectador de sua zona de conforto e  o atraindo para essa psicodelia como se experimentasse algum chá psicotrópico. 

Após a exibição eu cumprimentei o Sávio, que de forma muito simpática, ouviu meus comentários e confirmou minhas impressões sobre o filme Vênus. Eu vi muita inspiração nas obras de Georges Bataille e como o filme usa o erotismo e a transgressão do sagrado, quebrando tabus sobre sexo, gênero e comportamentos para passar sua mensagem. Também disse que a personagem do filme parece fazer parte do gênero futanari¹, mas como a linguagem da animação trazia consigo mesma elementos mais sujos e grotescos, através da narração e das ilustrações, também me lembram vagamente dos quadrinhos eróticos e grotescos do autor japonês Suehiro Maruo. 

A paixão de Sávio, quase sempre incompreendida, pelo tosco, é muitas vezes mal vista e não entendida por críticos e espectadores, principalmente por conservadores, que estão acostumados com um cinema puramente de entretenimento, muitas vezes adorado por uma espécie de “culto a técnica” e fetichização da qualidade gráfica das imagens. Mas Sávio não está interessado em trazer em seus filmes narrativas clássicas e uma linguagem comum, nem mesmo trabalhar com animação publicitária, pois segundo ele, sua gana pelo que é diferente e inovador só pode ser saciada na margem do cinema tradicional, no underground, no tosco.


[...] A resolução foi fetichizada a ponto de sua ausência equivaler à castração do autor. O culto da bitola, no cinema, dominou até mesmo as produções de filmes independentes. A imagem boa estabeleceu seu próprio conjunto de hierarquias, com as novas tecnologias oferecendo mais e mais possibilidades de degradá-la criativamente.”

Hito Steyerl, Em defesa da imagem ruim, p.185.


O cineasta cubano Júlio García Espinosa dizia que: “um cinema perfeito — técnica e artisticamente bem-sucedido -- é quase sempre um cinema reacionário”. ² Sávio parece seguir o conceito de filme imperfeito de Espinosa, fugindo das convenções e normas do cinema comercial estabelecido radicalmente pelo conceito neoliberal de cultura como mercadoria, o artista nega o uso de artifícios e técnicas sofisticadas, sem compromisso com o perfeito, criando imagens imperfeitas e grotescas. Criando um cinema de animação popular, rebelde e revolucionário, diminuindo as diferenças entre autor e público.

¹ Futanari é uma palavra composta traduzida literalmente para "duas formas" e com o significado de hermafrodita em japonês, utilizada para designar pessoas intersexo e, num sentido mais abrangente, andróginas ou altersexo. Além do Japão, o termo é usado para descrever um gênero pornográfico comum de eroge, mangá anime, que inclui personagens que mostram as duas principais características sexuais.Futanari, Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Futanari


² Trecho da fala de Julio García Espinosa citado no livro do Hito Steyerl, Em defesa da imagem ruim, p.185.